Desde a sua criação, a proibição das drogas tem-se baseado numa amálgama de argumentos que vão desde preocupações morais e religiosas a considerações de saúde pública e segurança. Poucas pessoas sabem hoje que a legislação rígida existente foi consolidada através da influência de movimentos ético-religiosos, apoiados pela imprensa e pelo discurso político americanos.
Como Antonio Escohotado demonstrou na sua História Geral das Drogasnem sempre foi assim e, ao longo dos séculos, a perceção e a regulação das drogas variaram enormemente, desde a sua integração em práticas religiosas e culturais na antiguidade até à imposição de leis proibitivas na era moderna. Esta mudança de paradigma reflecte a evolução das sociedades e as diferentes interpretações do uso das liberdades individuais. Neste contexto, explorar as motivações subjacentes à proibição e as suas consequências é fundamental para compreender a complexa teia da política de drogas atual.
A repressão do consumo de droga conduziu à criminalização dos consumidores de droga e ao aparecimento do tráfico de droga como fenómeno global. A legislação proibicionista gera um mercado negro que só fez aumentar a violência e o crime organizado em muitos países. Hoje em dia, a situação em certas zonas, como os Estados Unidos, é alarmante. A crise do fentanil, resultante de uma utilização médica irresponsável e da adulteração de outros estupefacientes no mercado negro com esta substância, torna infelizmente realidade notícias como a seguinte, recuperada da BBC: “Crise do fentanil leva cidade americana a declarar estado de emergência” (Matza, 2024).
Adoração: as drogas na antiguidade
Vale a pena recordar que, na Antiguidade e até ao início do século XX, as substâncias ilícitas não estavam sujeitas às restrições e proibições que hoje conhecemos. Em muitas culturas antigas, o uso de substâncias psicoactivas fazia parte de práticas religiosas e cerimoniais, vistas como uma forma de ligação com o divino ou de exploração da consciência com a ajuda de xamãs.
Grécia
Na Grécia antiga, por exemplo, o vinho desempenhava um papel fundamental, exaltado pelas suas qualidades sociais e espirituais, sendo considerado um elo com o divino, um instrumento de euforia e inspiração. Estava associada à celebração e ao culto de Dionísio, o deus do vinho e da fertilidade.
Nos mistérios de Elêusis, os mais célebres do mundo antigo, o kykeon, uma bebida sagrada contaminada com um precursor do LSD, era utilizado para proporcionar uma experiência religiosa transcendental em honra de Deméter e Perséfone, uma experiência única na vida, reservada apenas aos iniciados. Personalidades da estatura de Sócrates, Aristóteles e Alexandre, o Grande, passaram por este rito, que tinha de ser mantido estritamente secreto: “Os aspirantes à iniciação juravam pela sua vida manter os pormenores da experiência absolutamente secretos, e assim o faziam” (Escohotado, 1998).

Índia
Entretanto, na Índia antiga, a utilização da canábis estava enquadrada em contextos religiosos e medicinais. A planta da canábis, conhecida como “soma” nos textos védicos, era considerada sagrada e era utilizada em rituais religiosos para induzir estados alterados de consciência.
Roma
Mesmo no Império Romano, o consumo de drogas como o ópio e a canábis não estava sujeito às mesmas restrições legais que hoje em dia. Estas substâncias eram utilizadas para fins medicinais e recreativos, fazendo parte integrante da vida quotidiana de muitas pessoas. Sabe-se com certeza que havia lojas de ópio de acesso livre a qualquer cidadão e que era uma das mercadorias sobre as quais era proibido especular. É curioso, como nos conta Antonio Escohotado em História Geral das Drogas (1998), que não exista uma palavra latina para designar um toxicodependente de ópio.
Ao mesmo tempo, é interessante notar que, embora o ópio fosse comum, algo tão amplamente consumido hoje em dia como o álcool, era utilizado em quantidades muito menores na Roma antiga. Todos nós pensamos no imperador romano com uvas e vinho, ou nos gladiadores a beber antes da batalha, mas nem todos sabem que o vinho que bebiam era fortemente diluído em água, o que contrasta significativamente com os nossos hábitos de consumo actuais.

Proibição: o surgimento da Cruzada
Legislação
A narrativa proibicionista começa, historicamente, com o surgimento de movimentos morais e religiosos nos Estados Unidos, no final do século XIX e início do século XX, que defendiam a abstinência do álcool e de todas as outras substâncias psicoactivas. Este movimento, conhecido como Temperance Movement, ganhou força e levou à Proibição em 1919, que proibiu o fabrico, a distribuição e a venda de álcool nos Estados Unidos.

Esta medida revelou-se rapidamente uma experiência falhada. Em vez de reduzir o consumo de álcool, alimentou a criação de um mercado negro controlado por bandos de criminosos e aumentou a violência relacionada com o comércio ilegal de bebidas. Além disso, a proibição das bebidas alcoólicas teve efeitos económicos devastadores, especialmente durante a Grande Depressão.


Quando a Lei Seca chegou ao fim, em 1933, o foco do proibicionismo mudou para outras drogas, como a maconha, a cocaína e o ópio. A marijuana, em particular, foi alvo de uma campanha de demonização conduzida por figuras como Harry Anslinger e os presidentes Nixon e Reagan, que a associaram à violência e ao crime, bem como a estereótipos racistas.
A preocupação internacional com o tráfico de droga levou à Convenção Única sobre Estupefacientes de 1961, assinada em Nova Iorque, que estabeleceu pela primeira vez um quadro global para o controlo internacional da droga. Estas convenções, impulsionadas em parte pelos Estados Unidos, estabeleceram o corpus da cruzada proibicionista, centrada na redução da oferta e na criminalização do consumo, enchendo assim as prisões de prisioneiros não sanguinários.
A contracultura do século XX
Durante o século XX, surgiram movimentos que desafiaram as políticas de drogas existentes, especialmente nas décadas de 1960 e 1970. Neste período, assistiu-se a um ressurgimento do consumo de substâncias psicoactivas que começaram a fazer parte da contracultura e dos movimentos de protesto social. Estas substâncias tornaram-se símbolos de rebelião contra as normas estabelecidas e veículos de exploração da consciência e da espiritualidade.
A oposição à guerra do Vietname foi um importante catalisador do movimento hippie nos Estados Unidos. Os jovens opuseram-se fortemente à guerra, considerando-a uma manifestação do forte autoritarismo do seu governo. As drogas, em particular o LSD e a marijuana, foram adoptadas como instrumentos de rebelião e desobediência civil, promovendo uma mensagem de paz e amor em contraste com a violência e os conflitos armados.


O movimento pacifista abraçou um estilo de vida alternativo que rejeitava os valores tradicionais e defendia a paz, a liberdade individual e a ligação à natureza. Festivais emblemáticos como o de Woodstock, em 1969, tornaram-se epicentros desta nova cultura, onde a música, a arte e as drogas psicadélicas se fundiram para criar experiências lisérgicas únicas e multitudinárias.


À medida que as drogas psicoactivas se tornaram mais proeminentes na cultura popular, atraíram também a atenção dos decisores políticos e das autoridades. As experiências com LSD financiadas pelo governo americano, como o Projeto MK-Ultra da CIA – realizado entre 1950 e 1973 – foram uma tentativa de compreender e controlar os efeitos da droga para fins militares e de informação. Estes ensaios, que envolviam a administração de drogas alucinogénias como o LSD ou o MDMA a indivíduos sem o seu consentimento, não foram bem sucedidos e levaram a que a substância fosse injustamente estigmatizada pela comunidade científica como não tendo qualquer valor médico.

Neste contexto, a criação da Drug Enforcement Administration ( DEA ), em 1973, pelo Presidente Richard Nixon, não foi uma mera coincidência. A agência foi uma resposta direta à crescente influência da contracultura e ao aumento do consumo de drogas que desafiava as políticas proibicionistas tradicionais.
O fim da cruzada: novos regulamentos
Felizmente, como previu Antonio Escohotado, a cruzada parece ter terminado. Um dos principais países do velho continente, a Alemanha, acaba de liberalizar o consumo recreativo de canábis. Na América Latina, o Uruguai foi o pioneiro na legalização da produção e venda de marijuana em 2014, desafiando os acordos internacionais. Como efeito de contágio, outros países da região, como o Chile e a Argentina, seguiram o exemplo, autorizando o uso medicinal da canábis e diminuindo a pressão sobre o consumo e a posse de outras drogas. Nos Estados Unidos, embora continue a ser ilegal a nível federal, criando tensões inevitáveis, vários estados avançaram para a legalização da canábis recreativa, contrariando as políticas federais e estabelecendo os seus próprios regulamentos. Estados como o Colorado, Washington, Oregon, Califórnia e Alasca já legalizaram a venda e a posse de canábis para uso medicinal e recreativo, gerando um novo fluxo de receitas para os cofres do Estado.
A nova legislação europeia sobre drogas está a permitir ensaios clínicos de substâncias como o MDMA e a psilocibina para o tratamento de perturbações mentais como a depressão e o stress pós-traumático, entre outras patologias.
Mas mais surpreendente é o caso canadiano, onde foi lançado um projeto-piloto de três anos na província da Colúmbia Brit ânica, em que, embora as drogas duras continuem a ser ilegais, os adultos que estiverem na posse de menos de 2,5 gramas de qualquer uma das substâncias controladas não serão apreendidos, acusados ou presos.
Estas medidas reflectem uma mudança no sentido de uma abordagem mais científica e menos punitiva da política em matéria de droga. Apesar da evolução para políticas mais flexíveis e inovadoras, subsistem preocupações quanto ao aumento do consumo em países como a China e a Rússia, que continuam a exercer uma pressão proibicionista a nível internacional.
Conclusão
Em resumo, a evolução da política em matéria de droga desde a Antiguidade até aos nossos dias revela uma mudança drástica na perceção e na regulação das substâncias psicoactivas. Enquanto no passado estavam integradas em práticas culturais e religiosas, no século XX assistiu-se a um boom proibicionista que criminalizou o seu consumo e alimentou o tráfico de droga e a violência.
Hoje, porém, assistimos a uma mudança de paradigma, com vários países a avançar para a legalização e regulamentação, questionando as políticas restritivas do passado e procurando uma abordagem mais equilibrada e humana para o futuro.
Jorge Melero e Jorge Escohotado (Los Emboscados)
Para uma leitura mais aprofundada sobre o assunto, recomendamos-te Antonio Escohotado:

Bibliografia
- Escohotado, A., (1998) Historia general de las drogas, Madrid: Espasa.
- Matza, M. (2024) The fentanyl crisis that brings a US city to the brink. Declara o estado de emergência, Seattle: BBC

