História de Albert Hofmann: Mais do que o descobridor do LSD Publicado em February 10, 2025 por La Emboscadura Índice Toggle Um cientista visionário numa época de mudançaOs primórdios de Albert Hofmann: Natureza, química e investigação sobre a cravagemA descoberta do LSD: da intuição à revoluçãoHistória do LSD: Da investigação terapêutica à revolução culturalAs preocupações de Hofmann sobre o uso de LSDProgramas clandestinos e duplicidade de critérios políticosO renascimento psicadélico do século XXIA amizade entre Albert Hofmann e Antonio EscohotadoO legado de Albert Hofmann Albert Hofmann (1906-2008), químico suíço e descobridor do LSD, deixou uma marca indelével na história da ciência, da cultura e da farmacologia. A sua descoberta do LSD em 1938 transformou a perceção das substâncias psicoactivas no Ocidente, desafiando as fronteiras entre a terapia, a contracultura e a exploração espiritual. Descobrimos a sua história neste artigo escrito por Jorge Melero e Jorge Escohotado, diretores de La Emboscadura, a editora monográfica de Antonio Escohotado, que, para além de ser o autor do famoso livro História das Drogasfoi um amigo íntimo de Albert Hofmann. Um cientista visionário numa época de mudança A figura de Albert Hofmann (1906-2008) situa-se num contexto histórico complexo, em que o diálogo entre ciência e cultura estava em plena transformação. Hofmann, um químico suíço ligado à prestigiada empresa farmacêutica Sandoz, é recordado pela descoberta da dietilamida do ácido lisérgico(LSD), um composto que não só alterou a perceção ocidental de certas substâncias psicoactivas, como também, a seu tempo, pôs em causa a própria noção de “droga” e as fronteiras entre terapia, exploração interior e contracultura. Ao contrário da Antiguidade, onde o conceito de phármakon englobava tanto o remédio como o veneno, a sociedade moderna concebeu uma divisão rígida entre a droga tóxica moralmente questionável e o medicamento legítimo, regulado pelo Estado. O LSD levou esta tensão ao extremo, demonstrando mais uma vez que nenhuma classificação é estática ou definitiva. Os primórdios de Albert Hofmann: Natureza, química e investigação sobre a cravagem Albert Hofmann nasceu a 11 de janeiro de 1906 em Baden, na Suíça, e desde cedo mostrou uma inclinação para a natureza, a química orgânica e a procura dos mistérios escondidos na relação entre o homem e o seu ambiente. A sua formação universitária na Universidade de Zurique deu-lhe as ferramentas básicas para entrar na investigação farmacológica. Na Sandoz, em Basileia, Hofmann começou a estudar os alcalóides da cravagem do centeio(Claviceps purpurea), um fungo com uma rica tradição na farmacopeia europeia e que, desde a época clássica, despertava interesse devido às suas propriedades ambíguas, tanto curativas como perigosas (Escohotado, 1998). Cravagem do centeio. Nota: A cravagem do centeio(Claviceps purpurea) é um fungo que cresce nos grãos de cereais, especialmente no centeio, e que produz alcalóides tóxicos. Estes compostos foram responsáveis por uma doença devastadora na Idade Média, chamada Fogo de Santo António ou ergotismo. A doença afectava principalmente pessoas que comiam pão ou outros alimentos feitos a partir de grãos contaminados por este fungo, e os seus sintomas incluíam alucinações, espasmos musculares, convulsões e, em casos graves, gangrena, devido à extrema constrição dos vasos sanguíneos. Embora a cravagem fosse temida pela sua toxicidade, também era utilizada em pequenas doses como remédio. A descoberta do LSD: da intuição à revolução Em 1938, Hofmann sintetizou pela primeira vez o LSD-25, um derivado da ergolina, uma espécie de alcaloide da cravagem do centeio. Foi o 25º composto sintetizado pelo químico suíço durante as suas investigações sobre os derivados do ácido lisérgico, atualmente designados simplesmente por LSD. Na altura, a descoberta não atraiu muita atenção: o composto não parecia ter uma utilidade terapêutica imediata e foi arquivado. No entanto, Hofmann, guiado por uma intuição que ele próprio descreveu como uma espécie de“chamamento interior“, decidiu regressar à substância cinco anos mais tarde. Foi precisamente na primavera de 1943, no meio do caos global da Segunda Guerra Mundial, que fez uma nova síntese e teve um contacto casual com pequenas quantidades do composto. Este episódio viria a marcar uma viragem, pois Hofmann apercebeu-se de alterações perceptivas e sensoriais tão surpreendentes quanto perturbadoras. Hofmann ingeriu uma dose de 0,25 miligramas (250 microgramas) de LSD, uma quantidade extremamente elevada para uma substância tão potente como o LSD, com microdoses eficazes tão baixas como 20 microgramas. Três dias depois, a 19 de abril de 1943, decidiu autoadministrar deliberadamente uma dose mínima de LSD para compreender os seus efeitos. O famoso passeio de bicicleta do laboratório até sua casa, recordado comoo Dia da Bicicleta, viria a tornar-se uma espécie de marco fundamental na investigação psicadélica. Essa experiência sensorial, introspectiva e profundamente transformadora mostrou que o LSD podia alterar a consciência de uma nova forma, abrindo a porta a novos campos de investigação psiquiátrica, psicológica e filosófica. História do LSD: Da investigação terapêutica à revolução cultural A receção do LSD foi inicialmente ambígua. Durante os anos 50, o mundo vivia os efeitos do pós-guerra e o aparecimento da psiquiatria moderna. Psiquiatras, neurologistas e psicólogos exploram o seu potencial terapêutico com um interesse que faz lembrar as práticas da Antiguidade, onde não havia uma divisão nítida entre remédio e substância visionária. O LSD entrou no circuito académico e médico: foi utilizado para tratar dependências como o alcoolismo, depressões resistentes e outros distúrbios, com resultados mistos mas promissores (Carod-Artal, 2013). No entanto, este entusiasmo médico e científico foi ultrapassado pela dinâmica cultural e política da década de 1960. Sob a influência de grandes figuras como Timothy Leary, Aldous Huxley e Ken Kessey, o LSD transcendeu o domínio clínico e tornou-se um símbolo, um catalisador para a revolução cultural, o protesto político e a exploração espiritual. O Human Be-In (1967) foi um evento marcante no Golden Gate Park, em São Francisco, que constituiu um marco na contracultura dos anos 60 e foi fundamental para a popularização do LSD como símbolo de exploração espiritual e protesto cultural. Nele participaram figuras como Timothy Leary, que proferiu a sua famosa frase “Turn on, tune in, drop out”: um apelo ao despertar da consciência, à sintonização com valores autênticos e ao abandono de estruturas opressivas para viver mais livremente e em sintonia consigo próprio. A adoção maciça e indiscriminada do LSD provocou a preocupação de figuras como o próprio Albert Hofmann, que advertiu contra o uso irresponsável da substância fora de um quadro terapêutico controlado. As preocupações de Hofmann sobre o uso de LSD O próprio Hofmann exprimiu repetidamente a sua preocupação com a utilização irresponsável da substância fora do contexto terapêutico. Nas suas memórias, sublinhava que o LSD podia ser um“remédio da alma“, desde que fosse utilizado com rigor, respeito, orientações claras e supervisão, à semelhança da atitude prudente dos médicos hipocráticos ou da regulamentação religiosa dos antigos cultos. No entanto, perante a euforia juvenil e o escândalo das autoridades, a investigação médica não tardou a ser obstruída. Tal como, na Roma clássica, o culto báquico passou de celebração festiva a objeto de perseguição (Escohotado, 2021, p. 140), o LSD passou do reconhecimento terapêutico ao estatuto de droga proibida e demonizada. Programas clandestinos e duplicidade de critérios políticos A assinatura de convenções internacionais e o reforço das regulamentações internas em muitos países, incluindo os Estados Unidos, colocaram o LSD na lista I de substâncias controladas, equiparando-o a compostos sem valor médico reconhecido e com um elevado potencial de abuso (Hofmann et al., 2013). Paradoxalmente, enquanto o seu estudo era restrito nos meios académicos, entidades governamentais como a CIA levavam a cabo programas clandestinos – como o célebre MK-Ultra – utilizando o LSD para fins de controlo da mente, espionagem e guerra psicológica, o que demonstra a dualidade de critérios muitas vezes adoptada pelo poder político (Hinojosa, 2022, p. 4). O renascimento psicadélico do século XXI No final do século XX, e com maior ênfase no século XXI, a situação começou lentamente a mudar. Novas investigações, apoiadas por provas crescentes do potencial terapêutico das substâncias psicadélicas em ambientes controlados, conduziram a um interesse científico renovado pelo LSD, pela psilocibina e por compostos relacionados. Este renascimento recorda o aviso de Hofmann sobre a necessidade de ultrapassar preconceitos e explorar a farmacologia com rigor e curiosidade, não com o objetivo de “intoxicar” a sociedade, mas para encontrar ferramentas valiosas para a saúde mental, a criatividade e o auto-conhecimento. Antonio Escohotado e Albert Hofmann mantiveram uma estreita amizade durante anos. Escohotado, filósofo espanhol, é o autor de Historia General de las Drogas, um dos melhores livros sobre o assunto. A amizade entre Albert Hofmann e Antonio Escohotado É quase imperativo mencionar a bela amizade de Hofmann com o pensador madrileno Antonio Escohotado, com quem partilhou uma afinidade intelectual e espiritual tão estreita que costumavam chamar um ao outro“pai e filho“. Os dois admiravam-se profundamente e encontravam nas suas conversas um terreno fértil para explorar as implicações filosóficas, culturais e terapêuticas dos enteógenos. Numa ocasião memorável, Hofmann, Escohotado, Jonathan Ott e Alexander Shulgin, pai do MDMA e do 2C-B – e autor das obras PiHKAL e TiHKAL, cuja reedição será publicada por La Emboscadura no próximo mês – coincidiram nos Cursos de verão de El Escorial. Estes sujeitos eram as quatro pessoas mais importantes do mundo no campo da farmacologia. É precisamente nas obras que mencionámos que esta experiência é contada, tanto do ponto de vista de Shulgin como de Escohotado: Em pelo menos duas ocasiões o Felipe II foi um hotel invadido pela psicodelia, onde não só estudantes, mas também secretárias, barmen e ascensoristas trocavam experiências com os oradores. Realizadas na véspera do dia de folga, essas tomadas eram feitas calculando picos e platôs de cada produto, de modo que a altitude começava a subir por volta das 3 horas, e pelo que sei todos viajavam satisfatoriamente apesar de serem muitos (Shulgin, 2025). Após a descoberta do LSD, Hofmann continuou a trabalhar na Sandoz como chefe de investigação do departamento de produtos naturais até se reformar em 1971. Para além de ter descoberto o LSD, foi o primeiro a sintetizar a psilocibina (componente ativo dos cogumelos alucinogénios) em 1958; descobriu outros princípios alucinogénios do Ololiuqui(Morning Glory), a amida do ácido lisérgico e a hidroxietilamida do ácido lisérgico. Contribui igualmente para o desenvolvimento de medicamentos como a hidergina (para a circulação cerebral) e a diidroergotamina (para estabilizar a tensão arterial). Em 1979, Hofmann publicou o seu livro A minha criança problemática (uma obra que reflecte sobre a descoberta do LSD e os acontecimentos que o tornaram um símbolo da contracultura. O livro foi escrito quando a substância foi proibida e a sua investigação severamente restringida, e oferece uma visão pessoal e crítica dos usos terapêuticos do LSD, do seu impacto cultural e das controvérsias em torno da sua popularização. Hofmann acreditava que o LSD tinha um grande potencial para resolver problemas psicológicos modernos, como a conexão, o materialismo e a falta de propósito na sociedade contemporânea, e acreditava que a sua descoberta deveria ser usada em contextos terapêuticos e espirituais, e não recreativos. Uma obra considerada fundamental para compreender tanto a ciência como a filosofia por detrás do LSD. O legado de Albert Hofmann Albert Hofmann morreu em 2008, com 102 anos, tendo testemunhado todo o arco histórico do LSD: desde a sua descoberta numa modesta síntese laboratorial, à sua entronização como ícone contracultural, à sua ilegalização legal e ao seu lento ressurgimento no campo clínico. A sua figura encarna o paradoxo do phármakon na modernidade: uma substância capaz de suscitar medos, dogmas e proibições, ao mesmo tempo que encerra uma promessa terapêutica e espiritual. O legado de Hofmann convida-nos assim a refletir criticamente sobre as políticas proibicionistas, as visões morais e a importância de uma análise desapaixonada e baseada em provas que permita harmonizar as necessidades da saúde pública, da liberdade individual e do progresso científico. História da proibição de drogas Assim, ao evocarmos a história de Albert Hofmann e do LSD, voltamos a um dilema fundamental: que substâncias merecem ser perseguidas, veneradas, compreendidas ou estudadas? A resposta, como tantas outras no domínio dos psicoactivos, é complexa. Mas a figura de Hofmann recorda-nos que, se as barreiras legais e a inércia política não forem revistas, corremos o risco de perder oportunidades valiosas para melhorar a compreensão da consciência humana, perpetuando assim a cegueira colectiva para ferramentas que, se bem utilizadas, poderiam ter um impacto positivo no bem-estar e na liberdade do indivíduo. Jorge Melero e Jorge Escohotado (Los Emboscados), em Madrid, em 28/12/2024 Bibliografia Carod-Artal, F. J. (2013). Plantas psicoativas na Grécia antiga. Neurociências e História, 1(1), 28-38. Escohotado, A. (1998). Historia general de las drogas. Espasa. Escohotado. A. (2021). Majestades, crimes e vítimas. Emboscadura editorial. Hofmann, A., Wasson, R.G., Ruck, C. (2013). O caminho para Eleusis. Uma solução para o enigma dos mistérios. Fundo de cultura económica. Hinojosa, M. (2020). Timothy Leary. O sumo sacerdote da nova consciência. Revista Cannabis. Shulgin, A. (2025) TiHKAL. Parte narrativa. A emboscada. 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