A cannabis, uma das plantas mais antigas utilizadas para aliviar várias doenças, encontrou agora uma nova abordagem terapêutica: o tratamento de doenças auto-imunes.
Por ocasião do Dia Mundial das Doenças Autoimunes, hoje, 18 de março, no blog Cannactiva explicamos o que se sabe atualmente sobre a relação entre as doenças autoimunes, o sistema endocanabinóide e o potencial terapêutico da canábis para tratar estas doenças.
Nota: Este é um artigo informativo, não prescritivo e não se destina a prevenir, diagnosticar ou tratar qualquer doença. O seu conteúdo pode complementar, mas nunca deve substituir, o diagnóstico ou o tratamento de qualquer doença ou sintoma. Os produtos Cannactiva não são medicamentos e destinam-se a uso externo. Podem surgir novas provas científicas relevantes após a data de publicação. Consulta o teu médico antes de utilizares o CBD. A abordagem terapêutica deve ser sempre personalizada e depende da avaliação profissional.
O que são doenças auto-imunes?
As doenças auto-imunes são um grupo de doenças de origem ainda desconhecida, que ocorrem quando as defesas naturais do organismo são activadas contra os seus próprios tecidos, “atacando erradamente o próprio organismo” (1). Estas doenças dividem-se em duas categorias: localizadas e sistémicas. As doenças auto-imunes localizadas afectam apenas um órgão ou tecido específico, enquanto as doenças auto-imunes sistémicas podem afetar vários órgãos e sistemas corporais.
As doenças auto-imunes mais comuns incluem a artrite reumatoide, a esclerose múltipla, o lúpus e a doença inflamatória intestinal. As pessoas que sofrem destas doenças sofrem frequentemente de perda de peso, fadiga constante, inflamação e dor crónica, o que afecta significativamente a sua qualidade de vida e o seu bem-estar geral.
A canábis e a resposta imunitária
A planta da canábis contém um grande número de compostos que podem atuar individualmente ou em conjunto, em sinergia, para exercer efeitos no organismo e modificar a resposta imunitária do corpo (2-4).
Os terpenos, compostos encontrados na canábis e no cânhamo, têm vários efeitos que podem ajudar a regular ou modular a resposta imunitária. Alguns terpenos possuem propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes, que podem contribuir para a redução da inflamação e do stress oxidativo no organismo (5, 6).
O THC, o principal componente psicoativo da marijuana, pode interagir com os receptores endocanabinóides CB1 e CB2, que estão localizados em diferentes órgãos e sistemas do corpo. A afinidade do THC pelos receptores CB1 no sistema nervoso central é responsável pelos seus efeitos psicoactivos. No entanto, os receptores CB2, localizados principalmente no sistema imunitário, fazem do THC um composto interessante para o tratamento de doenças auto-imunes (7), uma vez que poderia modificar a resposta imunitária, reduzindo a atividade excessiva do sistema imunitário que caracteriza estas doenças (8).

Por outro lado, embora o canabidiol (CBD) não tenha uma afinidade direta pelos receptores CB1 e CB2, foi sugerido que pode activá-los indiretamente (9). Além disso, o CBD tem outros alvos de ação envolvidos em doenças auto-imunes, tornando-o um composto com múltiplos benefícios potenciais para estas condições.
Mecanismos de ação do CBD para ajudar as doenças auto-imunes
As principais vias através das quais o CBD poderia exercer os seus efeitos terapêuticos nestas condições são descritas em seguida:
Efeitos imunomoduladores
Foi demonstrado que o CBD induz a morte celular (apoptose) de células imunitárias activadas, reduzindo assim o seu número e a resposta imunitária global (9, 10). Isto é particularmente relevante nas doenças auto-imunes, onde a ativação excessiva do sistema imunitário pode causar danos nos tecidos do próprio corpo.
Efeitos anti-inflamatórios
O CBD diminui a produção de substâncias que causam inflamação e aumenta as que a reduzem. Inibe a produção de citocinas pró-inflamatórias, como o TNF-α, IL-1β e IL-6, enquanto aumenta a produção de citocinas anti-inflamatórias, como a IL-10 (10-12). A redução da inflamação é crucial na gestão das doenças auto-imunes, uma vez que a inflamação crónica pode levar a danos nos tecidos e exacerbar os sintomas destas doenças.
Efeitos neuroprotectores
Nas doenças auto-imunes que envolvem inflamação, como a esclerose múltipla, em que a neuroinflamação e a neurodegeneração desempenham um papel importante, o CBD pode proteger os neurónios dos danos oxidativos. A neuroprotecção é vital para prevenir a progressão da doença e manter a função neurológica dos doentes afectados.
Efeitos relaxantes
O stress é um fator importante nas doenças auto-imunes (13). Foi observado que a exposição crónica a eventos stressantes pode ter efeitos imunossupressores e aumentar o risco de desenvolver uma doença autoimune (14, 15). O CBD pode ajudar a mitigar o stress e a ansiedade, o que, por sua vez, pode ter um efeito positivo na gestão destas doenças.
Evidência Clínica da Cannabis em Doenças Autoimunes
A investigação atual sobre a canábis e o CBD nas doenças auto-imunes sugere que a utilização de produtos ricos em CBD pode ajudar a melhorar a qualidade de vida das pessoas com estas doenças. No entanto, foram encontrados efeitos significativos em doenças como a esclerose múltipla, a doença inflamatória intestinal (DII) e a artrite reumatoide em estudos que utilizaram combinações de THC com CBD (8).
Na esclerose múltipla, por exemplo, a utilização de THC e CBD tem demonstrado reduzir a espasticidade muscular, a dor neuropática e melhorar a mobilidade. Na doença inflamatória intestinal, estes canabinóides ajudaram a reduzir a inflamação intestinal e a melhorar os sintomas digestivos. Na artrite reumatoide, foi observada uma diminuição da dor e da inflamação nas articulações, melhorando a função física e a qualidade de vida dos doentes (8).
Utilização do CBD para doenças auto-imunes
Embora a eficácia do CBD em doenças imunitárias tenha sido demonstrada através dos seus mecanismos moleculares, os seus efeitos em estudos clínicos têm sido modestos. O CBD pode ajudar a lidar com alguns dos sintomas de doenças auto-imunes, embora não tenha sido sugerida nenhuma dosagem específica para o seu tratamento. É importante notar que a resposta ao CBD pode variar significativamente entre indivíduos, pelo que a dosagem e a monitorização devem ser personalizadas.
Embora o THC possa ter efeitos benéficos em doentes com doenças imunitárias, os seus efeitos psicoactivos reduzem a sua escolha como tratamento complementar. Além disso, o perfil de segurança do CBD, que inclui uma menor incidência de efeitos secundários e a ausência de efeitos psicoactivos, torna-o uma melhor escolha para quem procura alternativas para tratar doenças auto-imunes.
Recomenda-se que a utilização de terapias como a canábis medicinal ou o CBD seja feita sob rigorosa supervisão médica devido à elevada variabilidade da resposta individual aos canabinóides.
Conclusão
O sistema endocanabinóide está intimamente relacionado com o sistema imunitário, pelo que os canabinóides têm sido postulados como uma excelente opção para o tratamento de doenças auto-imunes. Os estudos que exploraram os mecanismos subjacentes aos efeitos imunomoduladores dos canabinóides forneceram informações sobre o seu potencial terapêutico, mas ainda é necessária uma investigação mais profunda e pormenorizada sobre a sua utilização em estudos clínicos.
A esperança é que nos próximos anos tenhamos informações definitivas sobre o tratamento com canabinóides para as doenças auto-imunes, o que poderá revolucionar a gestão e o tratamento destas doenças.
Nota: Este é um artigo informativo, não prescritivo e não se destina a prevenir, diagnosticar ou tratar qualquer doença. O seu conteúdo pode complementar, mas nunca deve substituir, o diagnóstico ou o tratamento de qualquer doença ou sintoma. Os produtos Cannactiva não são medicamentos e destinam-se a uso externo. Podem surgir novas provas científicas relevantes após a data de publicação. Consulta o teu médico antes de utilizares o CBD. A abordagem terapêutica deve ser sempre personalizada e depende da avaliação profissional.
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